Há muito que o abastecimento alimentar, a partir da sede capital do Namibe, afigura-se impossível para muitas das comunidades do Iona, no município do Tômbua. As longas distâncias e a falta de meios de transporte, aliadas ao estado inóspito das vias de acesso, obrigam que as populações locais façam a travessia do rio Cunene. Vão ao mercado namibiano à procura de bens de primeira necessidade.
O Iona é simplesmente mais uma comuna recôndita de Angola, com comunidades constituídas por pessoas simples, que pedem apenas que lhes seja dada água potável, educação e saúde. Coisas simples, mas essenciais à melhoria das condições de vida dos habitantes e ao desenvolvimento da região.
Localizada nos confins do sudoeste de Angola, a 235 quilómetros da sede municipal do Tômbwa, província do Namibe, a comuna do Iona é referenciada pela sua biodiversidade e pelo seu potencial turístico, tendo como referências o deserto mais antigo do mundo, a foz do rio Cunene, as comunidades autóctones que conservam hábitos e costumes seculares, entre outras maravilhas da mãe natureza.
São mais de 6.600 quilómetros quadrados de território, divididos em 16 povoações. A sua população é maioritariamente constituída pelos Muimbas, mas também por Mucubais, que são povos nómadas pertencentes ao grupo étnico linguístico dos Hereros, tendo como principal actividade a criação de gado bovino, caprino e ovino.
O soba grande do Iona, Tchikenga Hepute, lamenta o facto de muitos destes povos, que habitam nas zonas fronteiriças com a vizinha República da Namíbia, enfrentarem dificuldades para adquirir bens alimentares e outros, devido ao encerramento das fronteiras. São os casos das povoações de Monte Negro, Tchinungua, Tchavaya, Garota Nova e outras, algumas das quais visitadas recentemente pelo governador provincial do Namibe, Archer Mangueira.
"O povo está a passar fome. No passado, fazíamos trocas comerciais, por exemplo um cabrito por um saco de 50 quilos de fuba de milho. E, às vezes mesmo um boi por 15 sacos de farinha de milho"
“O povo está a passar fome. No passado, fazíamos trocas comerciais, por exemplo um cabrito por um saco de 50 quilos de fuba de milho. E, às vezes mesmo um boi por 15 sacos de farinha de milho. Mas agora as coisas estão paradas”, disse, na voz do seu secretário e tradutor António Ndicachi.
Há muito que o abaste- cimento alimentar, a partir da capital da província ou até mesmo do Tômbwa, afigura-se como impossível para muitas dessas comunidades, devido às longas distâncias e à falta de meios de transporte, aliadas ao estado degradante das vias de acesso. Daí que se torna muito mais fácil recorrer ao mercado namibiano, fazendo a travessia do rio Cunene.
Outra dificuldade apontada pelo soba Tchikenga
Hepute tem a ver com a falta de água, em algumas povoações, sobretudo as que estão afastadas do rio, como Otchifengo e Lutuima, que carecem de sistemas de captação e chafarizes, a exemplo das comunidades de Cambeno, Humbi, Mupaka e Iona sede.
Na localidade de Monte Negro, a mais distanciada de Moçamedes, sede capital do Namibe, o governador Archer Mangueira entregou moto-bombas e motorizadas cisternas, para a captação de água a partir dos rios, a fim de promover a criação de hortas na localidade, entre outras necessidades. Monte Negro tem uma população estimada em 127 famílias, que partilham o seu dia-a-dia com os efectivos da Polícia de Guarda Fronteira. Em 2018, a comunidade ganhou um posto de saúde, com apenas cinco camas. O mesmo carece de pessoal técnico e uma ambulância. Uma escola de duas salas de aula, construída em 2014, nunca chegou a funcionar por falta de professores. O governador reconheceu as dificuldades por que passa o povo de Monte Negro e prometeu construir residências para acolher professores e enfermeiros.
“A viagem do Iona para aqui é muito difícil e demorada, por isso imagino as dificuldades que vocês enfrentam para adquirir diversos bens”, disse Archer Mangueira. No final da visita, o governador do Namibe procedeu à entrega de produtos alimentares, roupa usada, cobertores e víveres, tendo desenvolvido acções similares nas povoações do Tchinungua, onde existem 47 famílias, Tcha- vaya, com 50 agregados, e na sede comunal do Iona.
“O governo vai procurar contribuir para a identificação de soluções a fim de resolver os problemas das vias de
comunicação e do acesso à água potável. Temos um rio permanente, o rio Cunene, e, paradoxalmente, estamos na zona que mais sofre com a seca, diria mesmo, no nosso país, portanto, qualquer coisa não está bem”, disse.
Fonte: Jornal Angola